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Pior que a seca

Daquele chão que não brotava uma flor de algodão, havia mais sóis que as palavras que conhecia. A terra rachava ensolarada e cinza. Chorou oca, embaixo de um pede pau e voltou para casa sem nada. Disse para o pai de seus futuros vazios e fugiu com o filho do vaqueiro.

A cidade não foi melhor para ela. Cozinhava numa escola de dia e preparava pastéis de noite. Antes que pudesse pensar que o fechar de olhos tinha sido um sono, já estava de pé, fritando massa. Tinha seis filhos, sete bocas para alimentar. Nicolau fora embora depois da última criança: um menino. O primeiro homem. Saíra para trabalhar e, como em muitas outras histórias, nunca mais voltara.

Francisca soube de uma ocupação pros lados de Messejana. Era terra muita. Se ela fosse, ia conseguir uma casa. Foi. E ficou dia e noite. Chuva e sol. Sem sair do abrigo que fizera de plásticos e pedaços de pau. Sabia que se saísse, perderia para alguém mais forte. Uma vez por dia, as crianças iam deixar comida numa concha de pratos amarrada num paninho.

Ganharam a terra. Construíram uma casa.

As crianças estudaram na escola em que ela cozinhava. Era boa. Tinha gente que passava na universidade. E as meninas podiam passar… Ela sonhava.

Só uma passou, mas tinha que pagar a mensalidade. O marido dela ajudava com um bocado, ela pagava a outra parte. Mas ele batia nela. Cuspia nela. Prendia a menina em casa, com medo dela conhecer alguém melhor. Dizia que queria sexo naquela hora e ela tinha que dar… Não tinha “não” que desse jeito…

E não tendo jeito: fugiu. Foi pra longe. Desistiu da faculdade, desistiu do amor… Seguiu a vida… Um novo companheiro, um novo bairro, uma nova rotina… e o mesmo telefone. A sua sorte se perdeu foi nisso. Ela sempre atendia as chamadas… em nome de um passado bom… que nem se lembrava mais… Depois, gritava e dizia para ele não ligar nunca mais. Nunca mais. Ele continuava. Até que um dia, resolveu pedir desculpas, fazer as pazes… Pediu para que ela fosse ao seu trabalho…Era vigia de uma escola, não haveria problemas. Tinha muita gente, afinal, que mal ele poderia fazer?

Ela ligou para a mãe, avisou. Pediu a benção e foi.

Não havia ninguém na escola, não onde ele estava. Ela estranhou. Tentou sair antes que fosse tarde. O homem agarrou os seus cabelos e quis latejar no seu calor, quis seu suor, o seu cheiro. Pela primeira vez, ela conseguiu forças para fugir. Não deu cinco passos e seu corpo caiu estendido no chão… “Mulher que é minha não vai ser de mais ninguém”.

Deu no jornal. Ninguém leu.

A mãe levou um pé de algodão… deixou no cemitério, junto com as lágrimas que nunca conseguira chorar. Ela não entendia como o homem podia ser pior do que a seca. Morreu naquele dia como nunca morrera antes.

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Fotografia: Tuane Eggers

Ana Paula Rabelo

Doutoranda pelo PPGL/UFC


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