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Sentimento-miragem

 

Brincava com os cachos sobre o peito da mão. Era tarde. O sol ardia nas pedras lá fora. Não cabia de calor quando entrara na sala. O suor ainda escorria pela nuca e encharcava a camisa… Por causa disso, nem viu quando os outros entraram, baixou a cabeça, puxou o cabelo pra frente e quis cochilar.

Não sabia se acordara num bar, em seu quarto, ou numa sala. Não sabia bem quem eram aquelas pessoas… mas reconhecia umas mãos que falavam à pele… ali… a dois metros… Tudo ainda era turvo menos o sorriso e um movimento lento, tão lento, que a fez fechar os olhos novamente… e perceber que aquelas mãos também estavam perdidas em suas memórias…

É que as mãos não são afeitas a ventos. Os balanços as deixam enlouquecidas e quando não têm onde se escorar, elas caem e somem de vista… Mãos falam em silêncio quando sonham no ar… Há umas incomparáveis, quando seguram seu pulso… melhor não segurar… Aquela mão era como o bambu de serra… Parecia que resistia… parecia… mas quando menos se esperava, vento, chuva, bambu, serra… se juntavam num peito aberto em uma camisa de “vermelho contido, esbatido, apenas um tênue rubor”, como disse uma vez um poeta. Havia gente ali? Quis abrir os olhos, mas desistiu…

Esses sentimentos-miragem… Esse deserto selvagem… Esses finais…

Todos saíram da sala… Ela rabiscando…

 

 

Queria aquele papel amarelo para camalear meus pensamentos

De doirados espaços reluzentes…

Tinha a certeza de que amassaríamos o sol

em nosso abraço…

Tinha tanta certeza… que poderia jurar

Que o sol findaria entre os nossos dedos…

…E os meus pensamentos não seriam mais que vapor

Fugindo pela janela, como um pássaro mensageiro…

Acontece que me entregaram uma linha.

E assim, sem nenhum equilíbrio, eu não sei o que fazer com ela…

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Imagem: Tumblr

Ana Paula Rabelo

Doutoranda pelo PPGL/UFC


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