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Água

Estou agora eu sentada à imensidão do mar
Mas não é a água que vejo
Vejo vento
Assim como o silêncio dá à música sua forma e, ao vaso, o vazio
O vento dá forma ao mar
E é para ele que olho agora
Poucos não gostam de se sentar à imensidão do mar
Como nos são admiráveis as curvas das ondas e as estripulias que a água faz feito fosse viva!
Faz-nos impressionar a força da água
Mas que força tem a água senão a de não ter força nenhuma?
O que carrega de forte é não resistir aos apelos do vento
É permitir-se, com a inocência de quem ama, ser o que for preciso ser
Dei-me conta um tanto tarde de que não tentar resistir a coisa alguma, de que se pôr disponível aos tentos de tudo é das mais bonitas versões da coragem
É confiar
É não pensar
É passar por cima dos rochedos aceitando-os como parte do caminho ao lugar de tentar lutá-los ou deixar de seguir ao vê-los em frente
Ser vento é dizer onde a água vai
Ser água é ir
Eu que já tanto resisti à ideia dos acasos
Que tantos tsunamis criei em dias de tempestade em mim
Vejo-me, enfim, dançando a beleza de ser água
Já não me encanta saber para onde estou indo
Ou tampouco pensar nisso
Já não me anseio a pedir que me sigam, querer que me sigam, esperar que me sigam
Nada espero senão não esperar por nada
Passa, vendaval
Passa, brisa
Serei quem for preciso ser
Serei quem for e nenhum palmo adiante disso
Reduzida a mim, seguirei encantada com a textura de tudo o que se pode sentir
Minha imensidão é não pensar.

mar-azul-claro

 

Ana Larousse

Ana Larousse é inventora de canções e escrevedora de poemas. Curitibana meio parisiense meio paulistana, gosta de lavandas e fuma cigarros demais. Antes de dormir, chá de capim cidreira e um bom livro sobre alguma guerra ou revolução. Tem um disco lançado e está preparando o lançamento de seu segundo disco e seu primeiro livro.


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