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Ali só está lá, porque ainda não vivi o amanhã

Encostou o ouvido na parede. Conversava com ela todas as noites. O som vinha manso. Trazia uma rotina colorida de sorrisos e musiquinhas toscas… Depois… ah! Era por isso que a espera era válida… Havia ainda ali uma máquina. Se a memória não falhava, deveria ser uma Olivetti Studio 46… Muito abusada, mastigava espaços em branco e desistia das folhas – adivinhava – antes do fim e recomeçava mil vezes. Como as letras musicavam seu quarto! Tinha vontade de dormir com aquela melodia…. Mas o desejo pesava-lhe mais que o sono.

 

Qual o próximo ato? Que danças fariam os dedos naquele fantoche criador de mundos? Seriam finos e leves (eles e suas palavras)? Sentiu o nódulo áspero do indicador encostar nos seus lábios secos, roubar memórias. Elas deslizavam de sua língua para a máquina, voluptuosamente, sem que tivesse controle. Suspeitou que aquelas mãos suportariam o seu sorriso cansado e adormeceu.

 

O dia que chegou foi outro… Daqueles que a gente sempre sabe que pode chegar, mas nunca aceita a sua entrada pela porta da frente. Ficou silêncio na noite. Vácuo ou caos? Perdera possibilidades… ao tempo em que se acostumara a elas.

 

Quis mais. Insaciável. Mais. Intenso. Mais. Muros. Mais. Paixão. Mais. Cidade à flor da pele, mormaço pulsando escárnios e desordens! Essas inquietudes incompreensíveis de tirar o sono, o senso, o bom… Queria a rua escancarada. Braços abertos, pernas abertas. Encostou o ouvido no muro. O sorriso escapou sem querer… As palavras transpassaram fluidas e cortantes para protege-la com âmbar… Diluíram-se… Ela e os muros…

 

… Esses limites que não existem em nós… esses nós que não existimos para limites…

 

… As palavras, o muro e ela… Se havia entradas, havia saídas… Indo e vindo, estavam livres!

 

 

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Fotografia: Eduardo Bruno

Ana Paula Rabelo

Doutoranda pelo PPGL/UFC


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