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Uma carta a você e à nossa vida assustadoramente finita

Acendi um cigarro, liguei o rádio, peguei a caneta e puxei a folha em branco. Encarei o papel, olhei pela janela, acompanhei um pouco as nuvens, voltei a olhar para o papel. O cigarro já quase no fim e ainda não sei o que te escrever nesta carta. O papel me pediu um foco e eu não sabia se te contaria o meu dia, se te contaria um segredo, um medo, uma vontade. Se te escreveria um poema ou se apenas falaria sobre a vontade de escrever uma carta. Acendi um segundo cigarro e pensei que eu deveria começar a escrever tendo como único obstáculo para a escrita o desejo de entupi-la de sinceridade. Daquela sinceridade que falamos ser difícil atingir quando se passa tanto tempo na vida sendo apenas companhia. Desliguei o rádio. São pensamentos demais pra se encaixar ainda os sons. Começo então a te escrever com a sinceridade com que se escreve uma carta suicida.

Um alarme de carro grita ao fundo, a luz do quarto é baixa e meu coração está pendurado por um cordão. Não como se estivesse caído e fosse arrastado por mim, mas como se estivesse inflado, querendo alçar um vôo e eu, apegada a ele que sou, segurando-o o quanto posso para perto de mim. Eu estou feliz. Eu acho que posso dizer isso. Não há nada que se pareça com um filme americano acontecendo na minha vida. Tudo está normal, calmo, tranquilo e excepcionalmente estável. Mas eu ando bem esses dias. É como se eu tivesse, depois de tanto me bagunçar, aceitado o pouco de caos que mora em mim. Como se agora fosse o momento para eu lambuzar o chão, já que não me importo mais com essas bagunças. Passei a gostar delas, me apaixonei pela minha desordem e pulo dentro de mim como pula um garoto na cama dos pais quando saem de férias. Dia desses li em algum lugar alguém dizendo que a vida é assustadoramente finita para que se passe fazendo o que não gosta. Há dias essa frase grita em mim. Assustadoramente finita.

No início dessa semana, achei uma caixa na casa dos meus pais com várias coisinhas que guardei até o fim da adolescência. São cartas, cadernos, diários, fitas cassete, roupas, bilhetes, papéis de bala e até coisas estranhas como terra, rótulos, pedaços de uniforme, chocolate, esculturas de argila, contratos e um óculos em comemoração ao ano 2000. Estou há uma semana mergulhada nesse pequeno museu da minha vida. Retomei contato com antigos amores no intuito de lhes mostrar as cartas que me escreveram, ouvi meus ensaios de banda dos anos 90 e chorei ouvindo as fitas que gravei aos 11 anos onde eu narrava histórias que escrevia. Caminhei por 19 anos da minha vida e me assustei com o tamanho dos anos, tão maiores que eu. E a vida assustadoramente finita me assombrando. A sensação de ir sendo esmagada pelos dias tão rapidamente é tão grande que me enxergo naufragando no tempo.

Acordo todo dia desacostumada com a vida, olho em volta, me localizo, aceito os sons da cidade, toco um canção com a voz ainda adormecida, aceito acordar e passo o dia tentando me acomodar de novo no mundo. Quando enfim consigo e a minha voz dança por dentro e por fora de mim, já é hora de dormir. E na manhã seguinte volto a ser a mesma aprendiz de mim, do mundo, de tudo. E aí penso que passarei os poucos dias da minha vida assustadoramente finita tentando me acomodar em mim. Me assusto e passo a odiar a ideia de comer, dormir, ir ao banheiro e perder tanto tempo da vida fazendo coisas tão elementares. Mas aí que eu encontrei essa caixa, esse pequeno museu da minha vida, e me dei conta que se teve algo que me acompanhou a vida toda foi essa paixão tão louca pela vida e pelo mundo. Eu me senti bem quando dei por mim e me vi uma maníaca aproveitadora da vida.

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(Fotografia via Tumblr)

Eu fiz tudo que senti vontade de fazer e somente o que tive vontade de fazer. As poucas coisas que não dão vontade de fazer como ir ao banco, comprar lâmpadas e lavar a louça, eu fiz usando de um método infalível: eu finjo que estou num filme. Dei por mim que até meus momentos de dor e tristeza foram vividos com paixão. Me vi inteira e acho que estou cada vez mais inteira em mim. Fiz aulas de latim, russo e italiano porque quis e não porque ia me servir para algo. Acabei de me matricular no hebraico porque quero e não vai me servir para nada. Fiz aulas de desenho, baixo, guitarra, bateria, vôlei, natação, futebol, viola caipira e cerâmica. Comprei um banjo, um ukulele, aquarela e tintas para tecido. Fiz camisetas, stêncis, sapateado e viajei de carro sozinha inúmeras vezes sem rumo algum. Gastei dinheiro que não tinha, ganhei dinheiro que nunca usei e nunca perdi o sono por nada disso. Li livros sobre Israel, Napoleão, lógica, nazistas, linguística e livros sobre pessoas que não me interessam muito. Pintei as paredes de todas as casas por onde passei, nunca gastei muito dinheiro com roupas e nem com festas ou shows. Mas nuncaeconomizei em livros, restaurantes e viagens. Me dei por mim e gostei do que vi. Isso tudo soa quase como um depoimento de uma leitora de auto-ajuda que foi curada da doença de não aproveitar a vida. Mas eu sinto isso gritando em mim e cá estou eu, destrinchando a te contar a conquista de eu ter me conquistado.

Mas você entende? A vida é assustadoramente finita para que a gente não faça tudo o que quiser – ou ao menos boa parte disso-, para que a gente não viva tudo com muita paixão. E a nossa vida é a única que temos. A única. E eu vou seguir por ela devorando tudo. Eu vou para o Nepal, para Israel, vou fazer serviços voluntários em áreas de conflitos, vou aprender idiomas que nunca vou usar e vou ler sobre coisas sobre as quais, muito provavelmente, não vou nunca conversar com ninguém. Vou trabalhar com arte, que isso me custe uma vida de quase não se pagar. Eu quero um sítio, quero filhos, quero um amor, dois amores, três amores, quero envelhecer do lado de alguém até que o amor acabe. Quero fazer tantas coisas e sei que as farei assim como tantas outras eu fiz. Eu quero, aos 80 anos, cantar My Way com um insistente sorriso no rosto por me ver tão inteira na canção. Não quero passar vontades, não quero fazer coisas nas quais não acredito e nem nada que não me faça dançar por dentro. Quero me apegar às melancolias e fazer de cada dor e tristeza um poema ou uma canção. Ou um passeio de carro na chuva. Ou um choro bom de chorar. Ou um grito bom de gritar. Você pensa muito nisso? Na finitude? Em viver para fazer o que se quer? Você sente isso? Você tem medo de chegar aos 80 anos e não se enxergar na tua história? Você quer envelhecer ao lado de alguém? Você quer um sítio? A vida te é assustadoramente finita?

 

 

Ana Larousse

Ana Larousse é inventora de canções e escrevedora de poemas. Curitibana meio parisiense meio paulistana, gosta de lavandas e fuma cigarros demais. Antes de dormir, chá de capim cidreira e um bom livro sobre alguma guerra ou revolução. Tem um disco lançado e está preparando o lançamento de seu segundo disco e seu primeiro livro.


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